Resiliência, Einstein e você | Designers Brasileiros

Em certos momentos, percebemos que o trabalho é cada vez mais repetitivo. Deixar-se abater por isso pode ser o fim da linha para mentes e corações criativos. Mas o que Einstein tem a ver com isso?

Já tem algum tempo que me perguntam sobre o que faço para me reinventar profissionalmente e me motivar. Muita gente parece procurar uma receita pronta para voltar a enxergar um futuro repleto de sentido e um dia-a-dia menos sacal. A rotina enche o saco, sabemos disso.

Reparo que esse é um problema universal. E não se limita à nossa vida profissional. A realidade está cheia de jovens que se dopam (de infinitas formas!) por enxergar pouco ou nenhum valor em suas vidas cotidianas. Reparou que não é uma questão fácil de responder, certo?! Mas vamos tentar pensar juntos.

Para todo e qualquer tipo de problema existem dois caminhos que levam a algum lugar. Sempre cabe a você decidir se aceita e resiste ou se muda de posição e reage perante o incômodo, certo? Como é um assunto extenso, hoje tratarei da primeira opção!

Nossos dicionários definem por resiliência nossa capacidade de defesa e recuperação perante fatores ou condições adversos. É nossa capacidade de adaptação ou evolução perante uma situação complicada. Aqui eu poderia passar horas citando exemplos piegas de resiliência e superação que até são bastante verdadeiros mas, fique tranquilo, não vou por esse caminho. Prefiro contar um pouco sobre alguém que, como eu e você, apanhou um bocado da vida, resistiu e encontrou uma forma de se reinventar. Na verdade o sujeito em questão reinventou um pouco mais do que a si mesmo. Este cara mudou as Leis da Física e ‘reinventou o mundo’.

Um Albert qualquer

Na virada do século XX, Albert, um desempregado alemão vivendo na Suiça sonhava em ser professor. Seu sonho, parecia cada vez mais distante. Formado em física e matemática, trazia a fama de aluno relapso de seus tempos de educação formal na militaresca Alemanha da época. Quando aluno, havia apresentado problemas de concentração e de enquadramento aos padrões vigentes e não conseguia se livrar do rótulo desde então. Desencantado da vida, passou a viver dos trocados que algumas aulas particulares lhe garantiam.

Com 21 anos e em sérios apuros, Albert procurava com urgência um trabalho que lhe garantisse um salário e aceitou a primeira oportunidade que apareceu. Um amigo de infância indicou-o para trabalhar numa repartição pública suíça, o Escritório de Patentes de Berna. O amigo desculpou-se afirmando que o dia a dia teria pouquíssimo a ver com Ciência mas lhe garantiria o pão diário. O trabalho consistia em analisar calhamaços de especificações técnicas e comparar projetos de quem requeria patentes com invenções já patenteadas. Como o próprio Albert revelou numa emocionada ao amigo, já era hora de “esse negócio chato de passar fome” ter um fim.

Albert passaria sete anos nesta repartição. Oito horas por dia, seis dias por semana, afundado em uma terrível rotina, acorrentado à sua repartição. A história do jovem Albert podia ter parado por aí. E nosso mundo seria muito diferente do que é hoje.

Annus Mirabilis

A verdade é que Albert nunca se deixou acomodar. De sua mesinha singela, entre centenas de tarefas chatas ele se manteve alerta e produziu boa parte de sua obra.

Depois de alguns anos de ‘latência’, Albert passou a escrever artigos sobre seus estudos e, no mesmo ano, emplacou quatro publicações em revistas científicas. Posteriormente, este ano de sua vida ficou conhecido como o Ano Miraculoso. Entre outros feitos, Albert provou a existência dos átomos e fundou um pilar da física quântica que lhe rendeu um Nobel quase 16 anos depois. Investindo nessa atividade paralela, finalmente emplacou sua obra-prima, a Teoria Especial da Relatividade, que apresentava o tempo e o espaço como uma coisa só e definia matéria e energia como duas faces da mesma moeda.

Depois de criar a maior revolução da história do pensamento. Albert virou Einstein. Exatamente assim, ralando nos intervalos de um trabalho massacrante e escondido do chefe.

Você e seu mundo paralelo

Pode ser que você tenha tido uma educação formal e trabalhe na área, como é meu caso. Ou pode ser que você seja um expert por vivência, alguém que dominou um assunto pela experiência laboriosa. Seja sua história como for, é importantíssimo notar que seu trabalho atual ou a falta dele não definem quem você é ou vai ser no futuro. Quem define isso, de verdade, é você e o que você prepara para si próprio.

Se sua realidade anda chata, que tal pensar em projetos paralelos enquanto se prepara para o futuro? Que tal investir tempo e dedicação em algo que realmente gosta? Pode não dar dinheiro agora. Pode até não trazer reconhecimento imediato. Mas certamente será o alicerce para dias melhores. Lembre-se que para colher é preciso plantar.

Gosto bastante da abordagem do Sean McCabe sobre os tais projetos paralelos. Hoje em dia eles são o novo ponto-chave de análise, o novo currículo da pessoa. Em muitos casos, importam mais do que um registro formal ou diploma. Se você não concorda que chegue a tanto, pense que certamente tem fator fundamental de desempate no comparativo entre dois profissionais.

E o meu?

Bom, se chegou até aqui está dedicando alguns de seus minutos ao meu projeto paralelo. Obrigado!

Um deles é justamente compartilhar conhecimento. É, escrever sobre o que faço e o que descubro. Mais de um mês depois de ter me afirmado nessa empreitada, aprendi algo muito legal com meu Mestre Jedi Evandro Reis:

Um especialista é aquele sujeito que possui um profundo conhecimento sobre um tema e é capaz de transmitir esse conhecimento de forma efetiva, recebendo o reconhecimento da classe por isso.

Encontrei aí o que este projeto paralelo me dá em troca. Pra mim, reconhecimento significa justamente ter cada vez mais leitores como você, que compartilham, opinam e engrandecem as discussões que proponho. Um projeto paralelo como este me sopra o frescor da novidade a cada dia e impede que a realidade do cotidiano me derrube, seja ela como for.

clap slow einsteinE quanto a você? Por que ficar parado, atado a uma realidade que parece não ter solução? Invista tempo e esforço em algo que ama. Seu cérebro humano é infinitamente poderoso e pode dar conta disso e de muito mais.

Dedique-se e seja persistente, mesmo sem retorno aparente. Comprometa-se e insista. Insista, insista e insista. Faça do seu presente um alicerce para seu futuro. E comece hoje.


Agradeço novamente seus minutos de leitura. Se curtiu espalhe a palavra ou me mande um tweet de apoio ou questionamento, vai ajudar me motivando a escrever.

Tenha uma maravilhosa semana, até a próxima!

Henrique Foca
Author

Foca é um designer experiente, com mais de 10 anos na área. É Head of Design e Home Officer na RedPill.Digital, apaixonado por UI e o universo a sua volta. Está em Milão cursando Mestrado em Visual Design pela Scuola Politecnica di Design.

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